Cada vez mais, pisos, escadas e guarda-corpos — três elementos de grande importância para a arquitetura e construção civil , encontram no vidro o seu componente principal. Isso é sensível não só no setor, que percebe o aumento dessa demanda na prática, mas também para os leigos, que identificam a aplicação do material nas edificações mais recentes.

O crescimento do uso do vidro nessas estruturas não é em vão. Ao se deparar com um ambiente com piso, escada ou guarda-corpo de vidro, dificilmente uma pessoa não se admira e quer saber mais sobre a instalação. Dentre outras qualidades, o vidro confere leveza, transparência e limpeza estética aos ambientes.

Tudo sem perder a segurança, cada vez mais presente com o avanço da tecnologia vidreira. Nesta reportagem, O Vidroplano conversou com especialistas e destrinchou os segredos da aplicação do vidro em pisos, escadas e guarda-corpos. De quebra, você confere projetos recentes, um mais belo que o outro.

Pisos de Vidro

Imagine-se flutuando no ar. Por mais utópico que possa parecer, muitas vezes é essa a descrição do que sentem as pessoas que caminham em um piso suspenso de vidro.

Nessa situação, o material pode ser aplicado de diversas formas de passarelas a mezaninos, de caixas suspensas a revestimento de piso comum. Mas, para que, além de belo, o projeto seja bem executado, é necessário seguir algumas regras, a começar pelos tipos de vidro que podem ser utilizados. “Temos duas aplicações básicas”, explica Carlos Henrique Mattar, gerente de Desenvolvimento de Mercado da Cebrace. “Nos pisos em que há risco de quebra com possibilidade de queda, o vidro deve ser laminado. Já em pisos para revestimento, podemos utilizar todos os tipos de vidro.” O laminado é composto de duas ou mais lâminas de vidro fortemente interligadas, sob calor e pressão, por uma ou mais camadas de películas plásticas.

Em caso de quebra do vidro laminado, os cacos permanecem presos, evitando que os fragmentos se soltem e que os objetos ou pessoas sejam lançados ao chão. Vale lembrar que uma vasta gama de tipos de vidro pode ser usada na composição do laminado em pisos suspensos, tais como temperados, impressos, antiderrapantes e antirriscos, entre outros. As empresas que trabalham com pisos e escadas de vidros sugerem o uso de vidros com três ou mais camadas de laminação. “Dessa forma, caso haja a quebra de uma delas, as outras placas sustentam
a estrutura provisoriamente”, explica Julia Schimmelpenningh, gerente mundial de Aplicações – Intercalares Avançados – da Solutia, fabricante de películas.

Resistência

Não há no Brasil uma norma técnica que regulamente a aplicação do vidro em pisos. A Cebrace, por exemplo, disponibiliza em seu site uma calculadora baseada em uma norma europeia para indicar qual espessura um vidro deve ter para suportar a carga que irá receber. De modo geral, os instaladores brasileiros fazem um cálculo razoavelmente lógico. “Quanto maior a dimensão da chapa, maior a quantidade de lâminas e espessura dos vidros. As lâminas ainda podem ser temperadas para maior resistência mecânica”, explica Heloisa Oleari, arquiteta da Hedron Engenharia.

Para Danila Ferrari, gerente de Operações da Fanavid, o cálculo estrutural do vidro deve ser feito caso a caso. “São levadas em conta a dimensão das peças, a quantidade de apoios, bem como a aplicação e utilização do piso”. Já o engenheiro Maurício Margaritelli, diretor-geral da T2G Technical Glass Group, faz o cálculo tendo como base que 40 cm² devem suportar o peso  de uma pessoa. “Sendo assim, grosso modo, 1 m² aguentaria, de forma distribuída, 570 kg”, explica, lembrando que devem ser considerados o contexto da  aplicação (se o local será destinado à passagem de pessoas ou exposição de objetos pesados, como automóveis e mobiliário) e eventualidades, como a queda de um objeto pesado sobre o vidro ou a pressão do vento, se for uma passarela externa.

Os especialistas chamam a atenção para um detalhe importante que pode aumentar a resistência do material: em vez de usar o tradicional polivinil butiral (PVB) na laminação, procurar outros produtos disponíveis no mercado desenvolvidos exclusivamente para isso, como o Saflex, da Solutia, e o SentryGlas, da DuPont. “O SentryGlas foi desenvolvido para atender as necessidades da arquitetura, cuja rigidez e resistência vão além da função de manter os vidros aderidos à camada plástica, oferecendo resistência estrutural”, explica Ivan Escalante, líder de Marketing para a América Latina da divisão DuPont Glass Laminating Solutions. O produto é cinco vezes mais resistente ao rompimento e cem vezes mais rígido que o PVB.

Apoio

De nada adianta usar vidros resistentes se eles não estiverem bem apoiados para resistir ao esforço a que serão submetidos. Por isso, firmar as placas de maneira correta é de suma importância em um projeto. “O vidro deve sempre ser apoiado em suas bordas, com calços de borracha macia e folgas, com uma borda mínima de 2,5 vezes à sua espessura”, ensina Mattar. Em casos em que o piso não é suspenso, ele pode ser aplicado diretamente na superfície.

Os especialistas também recomendam que o vidro não receba furos. “Se isso for necessário, precisamos usar temperados em toda a composição, o que complica e encarece a aplicação”, justifica Margaritelli. O ideal, segundo o diretor da T2G, é que o vidro esteja sobre um quadro de alumínio bem apoiado e nivelado.

Também é importante estar atento à borracha, componente primordial do apoio. “Normalmente, borrachas de 70 a 90 shores (unidade que mede a dureza da borracha) atendem os requisitos técnicos”, explica Marcos Vizzotto, gerente-comercial da Vetrino. A borracha ainda é muito usada para fazer a conexão com a parede e com os outros vidros. “Ela entra por ‘interferência’ entre as placas e a vedação por silicone estrutural”, afirma Mattar.

 

Guarda-corpos

Estrutura mais popular dentre as citadas nesta reportagem, o guarda corpo de vidro está muito presente em prédios comerciais, residências, shoppings e estações de metrô, dentre outros. “Os guarda-corpos, tanto nos espaços interiores como nos exteriores, são elementos importantes no aspecto final de uma obra. Nesse sentido, quando de vidro, têm-se espaços mais amplos, luminosos e sofisticados, valorizando esteticamente os ambientes”, afirma a engenheira Marta Pruns Ruiz, gerente de Planejamento e Obras da Itamaracá Design.

Há dois tipos de guarda-corpo de vidro. “Podemos projetá-los totalmente cleans ou utilizando vidros em esquadrias”, diz Fernando Passi, sócio diretor da Divinal Vidros. O primeiro citado por Passi é o engastado, embutido apenas em um ou dois lados. Nesses casos, o vidro tem função estrutural, o que obriga o uso de um temperado laminado para resistir aos esforços. Já o segundo é o encaixilhado, preso em toda a sua extensão em uma estrutura de alumínio. “As ferragens devem suportar a estrutura que será montada. Normalmente, o aço inox é mais adequado, mas podem ser utilizados outros materiais”, considera Nelson Libonatti Junior, diretor-comercial da Glass Vetro.

A fabricante de ferragens Belcom Solutions costuma trabalhar da seguinte maneira. “Seguindo especificações europeias, devem ser usados vidros laminados temperados de 6 mm + 6 mm até 12 mm + 12 mm de espessura”, recomenda Igor Schultz, diretor da empresa. “A altura para um guarda-corpo normalmente vai de 1 a 1,10 m, tendo um espaço mínimo de 270 mm para fixação.” O vidro também possibilita que os guarda-corpos tenham formatos variados. “Os arquitetos encontram inúmeras possibilidades em processadoras que concentram em seu parque fabril profissionais e equipamentos capazes de idealizar projetos que podem ser retos e curvos”, diz Silvio Vieira de Athayde, do setor Comercial e de Qualidade da Vipel, empresa que se destaca por fornecer vidros curvos temperados e laminados para essa aplicação. Um aspecto importante no processo de montagem do guarda-corpo, que também pode servir para os pisos e escadas de vidro, é o uso de silicones. Em locais em que seja necessária a vedação, o indicado é o neutro. “Caso contrário, coloca-se em risco a durabilidade do vidro laminado, especialmente porque o silicone acético agride o PVB”, afirma Athayde.

Segurança

Ao contrário do que acontece com pisos e escadas de vidro, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tem norma especifica para a instalação de guarda-corpos (leia a seção “Fa

lando em Normas” na página 35 desta edição). Segundo a NBR 14718:2008 — Guarda-corpos para edificação, só podem ser usados nessa estrutura vidros laminados ou aramados, conforme manda a NBR 7199:1989 — Projeto, execução e aplicações de vidros na construção civil.

A norma também estipula cargas a serem suportadas pelos diferentes tipos de guarda-corpo. “Fazemos os cálculos estruturais a partir de softwares para análise estrutural disponíveis no mercado e também por meio da NBR 14718:2008, que estabelece as cargas a serem suportadas em cada caso, como, por exemplo, se o guarda-corpo está em um espaço coletivo ou privado”, explica Raimundo Calixto de Melo Neto, diretor da RCM Estruturas Metálicas.

A Itamaracá Design calcula a espessura que o vidro deve ter levando em conta a pressão e a carga a que ele será submetido, além de dimensões da placa, tipo de fixação do vidro e quantidade de apoios. “Essas informações podem ser ampliadas, dependendo da tipologia do projeto”, explica Marta. Mesmo com todas as técnicas citadas, um guarda corpo só pode ser considerado correto se passar pelos testes citados na NBR 14718:2008. “A norma exige que façamos testes de esforços estáticos horizontal e vertical, além do ensaio de resistência a impacto”, lembra Jefferson Martins, especificador-técnico da PKO do Brasil.

Escadas de Vidro

“As escadas de vidro combinam técnica, imagem e design. São leves, transparentes e permitem ao arquiteto conceber formas incomuns. Podem ser iluminadas e especificadas tanto em residências como em áreas de alta circulação de pessoas.” É dessa forma que Marta Pruns Ruiz define uma escada de vidro.

A exemplo dos pisos, o tipo de vidro a ser usado nas escadas na maior parte das vezes é o laminado. “O temperado laminado também pode ser empregado, devido à sua elevada resistência
se comparado ao vidro comum, principalmente quando são transmitidos esforços por meio de ligações com furações, causando elevadas tensões locais”, explica Raimundo Calixto de Melo Neto, da RCM.

Na composição do laminado, também são muito procurados os vidros impressos, como o SGG Master Carré usado pela Saint-Gobain Glass na escada exposta em seu estande na Glass South America 2010 , por possibilitar maior aderência. A T2G, por sua vez, trabalha com o CriSamar Step, vidro antiderrapante da empresa espanhola Sevasa, certificado por normas internacionais e com dureza superficial próxima à do diamante, que pode ser usado em escadas e pisos.

                   

Versatilidade

As possibilidades de aplicação do vidro nas escadas são muitas. Para Chris Stutzki, presidente da americana Stutzki Engineering, elas são limitadas apenas pela imaginação do arquiteto.
“O vidro sozinho já tem enorme resistência estrutural, especialmente se ele for multilaminado e temperado. Além disso, a escada pode ser reforçada com peças de aço inox, hastes de tensão e
acessórios de aço.”

Há limites para a quantidade de degraus e patamares? Marta Pruns Ruiz diz que, no caso das escadas de vidro, o padrão é o mesmo das comuns, seguindo o que mandam as normas técnicas destinadas a elas. Sobre o tamanho máximo de vidro que pode ser utilizado, Marta explica que depende da estrutura em que vai ser fixada a escada, da  quantidade e tipo de apoios (pontuais ou contínuos) e da medida máxima que o fornecedor de vidro consegue oferecer dentro das especificações técnicas do material.

A alemã seele GmbH & Co deu um bom exemplo da versatilidade do vidro durante a Glasstec 2006. A empresa projetou uma escada de 8,5 m de vidros temperados e laminados com SentryGlas,
fabricados e instalados pela própria seele. O destaque foram os encaixes, laminados no próprio vidro, resultando em uma escada (foto acima) praticamente sem ferragens de fixação.

Nas laterais de cada degrau, era possível enxergar apenas um aparador de metal encaixado e colado nos vidros do guarda-corpo e do degrau

Cálculo estrutural

Como saber se o vidro suportará toda a carga que irá receber? Stutzki diz que considera dois pontos para fazer o cálculo estrutural. Primeiro, ele observaos possíveis cenários de quebra. Depois, são analisadas com detalhes as áreas de conexão do vidro para se descobrir possíveis picos de tensão. Já Jefferson Martins, especificador-técnico da PKO do Brasil, cita a complexidade da análise. “Depende de variáveis como aplicação, concentração de peso, etc. Cada caso é um caso e como não há uma norma técnica para ser seguida no Brasil, acredito que cada empresa deva fazer os cálculos à sua maneira, mas sempre se baseando em normas europeias e na ABNT NBR 7199:1989

Projeto, execução e aplicações de vidros na construção civil.” Softwares disponíveis no mercado também podem auxiliar nos cálculos.

Instalação

Montar uma escada de vidro é um processo complexo que varia bastante, já que ela pode ter diversos formatos (espiral, retas, etc.), tecnologias, ancoragens e tipos de apoio. No entanto, há um consenso entre os especialistas: a instalação exige mão de obra altamente qualificada.

                     

As ferragens utilizadas na montagem quase sempre são projetadas de maneira exclusiva. “Normalmente, sãode aço inox e existem empresas especializadas em preparar essas ferragens sob encomenda”, afirma Stutzki. Marta, da Itamaracá Design, lembra que, às vezes, são feitas improvisações indevidas, pois alguns construtores acabam usando ferragens convencionais à venda no mercado.

Fonte: Abravidro